|
Às vezes é preciso tomar um tombo pra aprender uma grande lição. Acho que foi isso que aconteceu comigo no domingo dia 31 de maio de 2009 na Maratona de São Paulo.
Após ter estreado na famosa e atraente distância de 42 quilômetros e 195 metros na Maratona de Porto Alegre em 2008, planejei correr a minha segunda maratona na minha terra natal de São Paulo. Mesmo não morando lá há mais de 15 anos, e passando por lá só de vez em quando, Sampa vai ser sempre minha terra. Alguns amigos (né Fabinho!) já me chamam de Paraulista (Paraense com Paulista), o que acho legal. Afinal, na camisa da Atitude que corria em SP, estava lá a bandeira da minha nova terra, o Pará.
Voltando a corrida. Planejei com boa antecedência tudo em torno da prova. Inscrição feita meses antes, casa dos pais pra ficar antes e depois da prova, viagem na sexta pra descansar do trajeto de avião, pegar o kit no sábado com tranqüilidade (e lá encontrei a companheira Emilia da Atitude que ia correr os 10km), almoço de massas, e a noite uma refeição leve pra dormir cedo e acordar mais que preparado. Ou seja, tudo certinho.
No dia da corrida também tudo certo. Acordei bem, café reforçado sem exagero, roupa da corrida pronta e acessórios idem. Parti rumo a corrida, mas antes peguei outro companheiro da Atitude, o nosso Miguelzinho que ia treinar uns 32kms, seu longão preparatório pra Maratona do Rio agora no fim de junho. Muito chique esse rapaz! Ele e a sua parceira Claudia (que também foi correr os 10km) subiram no carro. Chegamos no local com boa antecedência, paramos o carro com tranqüilidade e fomos nos preparar par largada.
Temperatura não muito fria (19o) e uns 10 mil corredores prontos para o tiro (de canhão) da partida. Na concentração o Miguel encontrou outro companheiro que ia fazer um longão com ele, o Miro. Saímos os três pra ver o que ia dar. Cada um na sua.
Começando na subida da ponte estaiada (uma versão Paulistana da ponte da Alça Viária, o povinho sem criatividade!) seguimos os três. Marginal de Pinheiros, mais uma ponte (a do Morumbi) e no outro lado da Marginal. Eu comecei num ritmo bom, queria baixar o meu tempo de 4 horas e 29 minutos de Porto Alegre. Fazer 4:13 (6 minutos o km) era a idéia. Lá pelo 4 km me perdi do Miguel e Miro. Tava sentindo bem e fui indo, um pouco mais forte do que queria, mas tranqüilo. Queria fazer a meia, ou quem sabe 30 km forte, porque sabia que no final ia quebrar, diminuir o ritmo.
Conheço poucos corredores que correm sem NENHUMA preocupação com seu tempo. Faz parte da nossa natureza, de mostrar que podemos mais, que podemos melhorar, ganhar da gente mesmo. E se der pra ganhar doa amigos pangarés, melhor ainda. Então tempo é uma preocupação sim de nós corredores.
Passei os 10km pra 57:30. Dentro da minha previsão agressiva. Foi quando vi minha equipe de apoio, como combinado. Capitaneada pela minha esposa Gabi, e com apoio do meu pai Jorge e tia Vera (tinha a filha e o genro correndo também). Uma injeção de ânimo para a próxima parte. E foi mesmo. Tanto que nos km 20 os vi pela segunda vez, e passei a meia com 2:01:00. Pensei, “beleza”, agora é só administrar a segunda metade que tudo vai dar certo.
SÓ O CARAMBA!. No km 22 sofri a primeira de várias câimbras. Foi no pé esquerdo. Parei, tentei alongar, mas nada. Tive que sentar, tirar o tênis, fazer uma massagem. Melhorou, perdi só 1 minuto e segui em frente, ainda num ritmo bom. No km 25 vieram as câimbras nas panturrilhas e coxa. Parei mais um pouquinho e consegui continuar. Já no km 28 a dor tava muito forte e comecei a caminhar e correr, praticamente meio a meio. O Miguelzinho me alcançou ai, e deu uma grande força. Mas as câimbras continuaram. No km 32 em diante não consegui correr mais. Nem trotar. Foi quando decidi. Ia chegar no final nem que me arrastando.
Usei uma técnica já conhecida de muitos corredores que é dedicar um km ou trecho da prova para uma pessoa querida. Esse foi um fator motivacional importante pra mim. No km 34 encontrei pela terceira e última vez minha equipe de apoio. A Gabi veio ao meu encontro pois já sabia que tava só caminhando. De uma força, uma coca cola e um chocolate, mas não dava. Falei que ia caminhar até o final e continuei. Um quilômetro depois sentia as maiores dores de toda a corrida. Não sabia que tínhamos tantos músculos na perna. Tinha câimbras na maioria deles. Às vezes intercaldos, às vezes tudo junto. Foi quando me joguei num pedaço de grama perto do meio fio. Pior erro que fiz. Fiquei praticamente imobilizado por 3 minutos. Não conseguia mexer nada que não doesse muito. Parecia um boneco de Playmobil. Como tinham poucos corredores passando por lá e era um local meio isolado no meio da prova, ninguém me ajudou. Melhor assim, porque ai tive que juntar forças, me levantar e seguir caminho.
Num teve jeito. Tinha que acabar. E antes de passar pelo enésimo túnel pedi uma assistência médica num posto da prova. Gelol na criança. Aliviou e lá fui eu. Agora só faltam 5km. Mas andando demora um século. Conversa um pouco com outros corredores sofrendo do mesmo mal, continuo. Lá pelo km39 quem vejo me passando. O Miro. Pensei que ele tivesse desistido, mas o longo dele virou a prova inteira. Acabou servindo de referência pra mim. Quando cheguei no 41km me emocionei. Sabia que tinha conseguido. Faltando uns 400 metros a Gabi me encontrou de novo, me incentivou mais uma vez e acabei conseguindo correr, ou pelo menos fingir que corria, até a chegada. Depois de mais de 5 horas, enfim cheguei ao final.
Aprendi inúmeras coisas. As que recordo mais inclui o fato de sempre respeitar uma maratona. Você nunca, NUNCA sabe exatamente como vai ser. Também que respeito os corredores que não conseguem correr a distância da prova inteira. Seja 5, 10km, meia ou uma maratona inteira. Acredito agora que eles estão dando tudo de si. E isso é que mais importa. Aprendi a não desistir facilmente, não tomar o caminho mais fácil, mas sim seguir o caminho correto. Eu honrei a medalha que recebi. Foi sem dúvida a mais difícil, dolorida, penosa corrida da minha vida. Foi também a mais saborosa, mais conquistada, mais merecida que fiz até hoje.
E não vou desistir, por enquanto. Dia 1 de novembro já estou inscrito na Maratona de Nova Iorque. E pretendo vencer de novo...
Abraços e boas corridas,
Eduardo Landé |